Por Leila Navarro
Ela Não Se Cala revela o custo invisível do silêncio emocional nas empresas e mostra como muitas pessoas aprenderam a chamar de maturidade aquilo que, na prática, virou autoabandono.
Durante muito tempo fomos treinados para ser profissionais exemplares. Chegar antes do horário, sair depois, não reclamar, não levar nada para o lado pessoal, engolir desconfortos com educação e chamar isso de maturidade. Hoje, olhando com mais consciência, a pergunta é inevitável: não demos um nome bonito para algo que era, na prática, abandono de si?
Nos últimos meses, lancei no meu canal do YouTube a minissérie Ela Não Se Cala. São dez episódios curtos, em formato vertical, quase como um diário íntimo. A protagonista, Clara, é o retrato de milhares de profissionais que vemos todos os dias. Competente, dedicada, estudiosa, apaixonada pelo que faz.
Ela conquista o emprego que sonhou durante anos e, pouco a pouco, começa a desaparecer dentro dele.
Nada explode. Nada vira escândalo. Não há gritos nem agressões explícitas. O que existe é muito mais perigoso.
O silêncio emocional nas empresas não faz barulho
O que adoece Clara não é algo fácil de apontar. São microagressões, silêncios estratégicos, exclusões elegantes, ironias travestidas de brincadeira, críticas em público disfarçadas de orientação.
É o tipo de ambiente que adoece sem deixar prova.
E a pergunta que insiste é direta: quantas Claras existem hoje dentro da sua empresa?
Ainda imaginamos o assédio como algo escancarado, grosseiro, fácil de identificar. Porém, o que mais destrói atualmente é o assédio sofisticado. Aquele que não gera documento, não vira processo e não aparece em relatórios.
Não ser chamada para reuniões importantes. Ter um arquivo que “some” justamente na sua vez. Ouvir correções na frente de todo mundo. Receber elogios atravessados. Perceber o grupo de WhatsApp silenciar quando você entra.
Nada denunciável. Tudo sentido.
O mais cruel acontece quando a própria pessoa começa a duvidar de si. Será que estou exagerando? Será que o problema sou eu? É aí que começa o adoecimento emocional.
Quando o corpo fala e a empresa manda calar
Na série, Clara começa a cortar o almoço para ganhar tempo. Passa a comer em frente ao computador sem perceber o gosto da comida. Abandona a academia. Para de atender a mãe. Afasta-se dos amigos.
E chama isso de foco.
Quantas pessoas você conhece vivendo exatamente assim?
Quando o corpo treme, chamamos de estresse. Quando falta ar, chamamos de ansiedade. Quando não dormimos, chamamos de fase. Porém, o corpo está dizendo algo muito simples: isso aqui não está saudável.
Só que aprendemos a silenciar o corpo para continuar cabendo.
Esse é um dos custos mais invisíveis do silêncio emocional nas empresas. Ele não aparece nos indicadores tradicionais, mas cobra a conta no corpo, na mente e nas relações.
A NR-1 muda o jogo da saúde emocional nas empresas
Em 2026, a NR-1 amplia oficialmente o olhar sobre os riscos psicossociais no trabalho. Isso muda completamente o jogo.
Saúde emocional deixa de ser um tema “fofo” e passa a ser responsabilidade organizacional.
Não é sobre yoga na sexta-feira. Nem sobre mesa de frutas na copa. É sobre cultura, liderança, metas possíveis, comunicação honesta e limites claros.
A série Ela Não Se Cala antecipa essa conversa sem juridiquês, sem palestra e sem manual. Apenas mostra o que acontece quando ninguém pode falar.
Emoção não é fraqueza. É dado.
Em um dos episódios, Clara tem um insight central: emoção não é fraqueza. Emoção é dado.
Medo mostra risco.
Raiva mostra limite ultrapassado.
Cansaço mostra excesso.
Tristeza mostra perda de sentido.
Líder que ignora emoção toma decisão ruim. Líder que sabe ler emoção antecipa crise. É simples assim.
Ignorar o silêncio emocional nas empresas não torna a organização mais forte. Apenas a deixa mais cega.
“Eu não vou mais me abandonar para caber”
No último episódio, Clara diz a frase que resume tudo: “Eu não vou mais me abandonar para caber”.
Essa frase dói porque é espelho.
Quantas pessoas estão se abandonando hoje para caber em culturas que não as respeitam? Quantos líderes seguem normalizando o adoecimento em nome do resultado?
Criei Ela Não Se Cala porque o burnout está sendo romantizado. O silêncio virou estratégia de sobrevivência. O medo virou rotina. E a liderança está ficando cada vez mais dura, enquanto o humano fica cada vez mais invisível.
A série está disponível gratuitamente no YouTube porque conversa transforma mais do que cartilha.
No fim, não é sobre fragilidade. É sobre consciência. Não é sobre parar de trabalhar. É sobre parar de se abandonar.
Porque, no final das contas, o maior risco psicossocial não é a pressão. É achar normal viver sem sentir.
Clique aqui para assistir ao primeiro episódio.
Sobre a autora
Leila Navarro é especialista em Saúde Integral, Liderança Sensorial e Cultura Regenerativa. Criadora dos conceitos de Ergonomia Sensorial, Inteligência Sensorial e Liderança Presente. Atua em empresas e eventos no Brasil e no exterior, unindo ciência, neurociência e experiência prática para provocar a reconexão entre corpo, emoção, propósito e tecnologia.
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