Mudança civilizacional: por que líderes precisam ampliar o olhar além da IA

Mudança civilizacional

Em uma mudança civilizacional, olhar apenas para o próprio negócio já não basta. Voltei do AI for Good Summit, em Genebra, com uma sensação que ainda não consegui abandonar. A de ter visto o planeta um pouco mais de longe.

Não literalmente. Mas foi algo muito parecido com o que os astronautas descrevem ao observar a Terra do espaço e experimentar o chamado Overview Effect. As fronteiras desaparecem e aquilo que parecia separado passa a fazer parte de um único sistema.

Foi assim que voltei.

Talvez esse seja um dos maiores desafios para quem lidera hoje: ampliar o campo de visão.

O futuro não é apenas inteligência artificial

Estamos atravessando uma transformação que já não pode ser reduzida a uma revolução tecnológica.

Inteligência artificial, crise climática, mudanças geopolíticas, novas relações de trabalho, desigualdade de acesso, longevidade, educação, saúde e novas formas de produção de conhecimento acontecem ao mesmo tempo. Cada uma dessas mudanças influencia as demais.

Isso é muito maior do que aprender a usar IA.

Também é muito maior do que o Vale do Silício.

Às vezes tenho a impressão de que observamos meia dúzia de empresas de tecnologia e passamos a falar sobre o futuro da humanidade.

Mas que humanidade?

Somos mais de oito bilhões de pessoas.

Enquanto uma parte do planeta ainda vive desconectada ou com acesso precário à internet, outra discute agentes autônomos, superinteligência e quais profissões serão automatizadas primeiro.

As duas realidades coexistem.

As duas fazem parte do mesmo futuro.

Mudança civilizacional - Ambiente tecnológico mostrando conexões entre clima, inteligência artificial, economia e sociedade.

A pergunta que fazemos revela a visão que temos

Por isso me preocupa quando a principal pergunta de uma empresa diante da inteligência artificial é simples: quantas pessoas conseguiremos substituir?

Produtividade importa.

Eficiência importa.

Resultados importam.

Empresas precisam ser economicamente sustentáveis.

Mas, diante de uma transformação dessa magnitude, se nossa primeira pergunta é apenas quanto economizaremos na folha de pagamento, estamos usando uma tecnologia do século XXI com uma visão de mundo pequena demais para o século XXI.

O mesmo acontece quando acreditamos que mudança climática pertence aos governos, que desigualdade pertence a outros países, que educação pertence às escolas ou que ética em inteligência artificial pertence apenas às grandes empresas de tecnologia.

Não pertence.

Todos participamos da construção do futuro

O futuro também nasce das pequenas decisões.

Do que uma empresa compra.

Do que aceita.

Do que rejeita.

Da tecnologia que adota.

Dos comportamentos que recompensa.

Dos limites que estabelece.

Dos profissionais que desenvolve.

Dos fornecedores que escolhe.

Das perguntas que faz antes de tomar uma decisão.

Consciência também é uma forma de poder.

Não estou dizendo que um gestor brasileiro decidirá sozinho os rumos da inteligência artificial.

Estou dizendo algo mais importante.

Ele participa deles.

Um professor participa.

Um empreendedor participa.

Um profissional de RH participa.

Um comunicador participa.

Um consumidor participa.

Um cidadão participa.

Sistemas econômicos, empresas e governos respondem às escolhas coletivas feitas todos os dias.

Liderança em uma mudança civilizacional

É por isso que liderança já não pode significar apenas administrar aquilo que acontece dentro dos muros da organização.

O mundo entrou na empresa.

A geopolítica entrou na empresa.

O clima entrou na empresa.

A inteligência artificial entrou na empresa.

A transformação demográfica entrou na empresa.

A saúde mental entrou na empresa.

A desigualdade entrou na empresa.

O futuro entrou na empresa.

Fechar a porta já não resolve.

Pessoa contemplando um horizonte amplo representando visão estratégica.

Ampliar o lugar de onde olhamos

Talvez a competência mais urgente para quem lidera seja enxergar as conexões.

Levantar os olhos do dashboard.

Sair da própria bolha por alguns instantes.

Olhar além do trimestre, além do setor, além do país e além do interesse imediato.

Não para salvar o planeta sozinho.

Mas para compreender de qual planeta o seu negócio realmente faz parte.

Foi isso que mais me atravessou em Genebra.

Fui ao AI for Good Summit esperando observar o futuro da inteligência artificial.

Voltei pensando muito mais sobre o futuro das pessoas.

Sobre quem participa.

Quem fica de fora.

Quem decide.

Quem se beneficia.

Quem assume os riscos.

E principalmente qual é a nossa responsabilidade diante de tudo isso.

Foi por isso que decidi criar um encontro chamado Conselhos do Futuro.

Não será um webinar sobre ferramentas de IA.

Também não será uma tentativa de prever o futuro.

Quero compartilhar o que vi, ouvi e vivi ao lado de pesquisadores, empresas, governos, organizações internacionais e pessoas de diferentes partes do mundo.

Mais do que apresentar respostas, quero colocar perguntas sobre a mesa.

Porque estou cada vez mais convencida de uma coisa.

Em uma mudança civilizacional, não enxergar além do próprio umbigo deixou de ser apenas falta de consciência.

Virou risco de negócio.

Talvez o primeiro conselho do futuro seja justamente este.

Antes de tentar prever o que vem pela frente, amplie o lugar de onde você está olhando.

O que é uma mudança civilizacional?

É uma transformação profunda que acontece simultaneamente em áreas como tecnologia, economia, política, clima e relações sociais, alterando a forma como vivemos, trabalhamos e tomamos decisões.

Por que a inteligência artificial não deve ser analisada isoladamente?

Porque seus impactos estão conectados a questões como educação, desigualdade, saúde mental, geopolítica e sustentabilidade.

Qual é o principal desafio da liderança nesse contexto?

Desenvolver uma visão sistêmica, capaz de compreender como decisões locais influenciam um cenário global em constante transformação.

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