Liderança e inteligência artificial passaram a ocupar o mesmo espaço de uma maneira que já não permite tratar tecnologia apenas como ferramenta. Ela está mudando empregos, decisões e consequências.
Na Coreia do Sul, uma greve de cerca de 40 mil trabalhadores colocou essa transformação diante de uma realidade concreta.
Na sexta-feira, 21 de agosto, trabalhadores representados pelo sindicato da Hyundai pararam as fábricas. Era a primeira greve integral do sindicato em uma década.
Salários estavam na mesa. Aposentadoria também.
Mas havia algo novo sentado naquela mesa: automação, inteligência artificial, robôs humanoides e o futuro do trabalho.
Quando vi aquelas imagens, pensei:
A Revolução Industrial nunca acabou.
Ela apenas foi mudando de forma e acelerando.
Máquina a vapor. Eletricidade. Linha de montagem. Computador. Internet. Automação. Inteligência artificial. Agentes. Robôs humanoides.
E nós fomos nos adaptando.
Criamos empregos. Perdemos empregos. Inventamos profissões. Abandonamos outras. Mudamos empresas, cidades, relações sociais e até a maneira como organizamos o tempo.
Só que existem momentos em que alguma coisa acontece e nos obriga a perceber a revolução enquanto estamos dentro dela.
A greve da Hyundai foi um desses momentos.
E, para mim, ela traz uma pergunta particularmente importante para quem lidera:
Como liderar uma transformação tecnológica sem perder de vista as diferentes realidades humanas que ela produz?
Porque basta sair da nossa bolha para perceber que não existe uma única resposta.
Na Coreia do Sul, trabalhadores colocaram automação, IA e robôs humanoides entre suas preocupações.
Na China, um trabalhador foi substituído pela própria IA com a qual trabalhava. A empresa ofereceu outra função com redução de 40% do salário. Ele recusou, foi demitido, procurou a Justiça e ganhou. A demissão foi considerada ilegal.
No Japão, o problema é quase o inverso: faltam humanos para trabalhar. Com uma população envelhecendo e uma escassez de mão de obra, automação e robótica fazem parte da resposta.
Nos Estados Unidos, empresas aceleram a adoção da IA pressionadas por produtividade, eficiência e competitividade.
Na Europa, a corrida tecnológica convive com outra preocupação: estabelecer direitos, limites e responsabilidades para a relação entre humanos, empresas e tecnologia.
Pare por alguns segundos diante dessas diferenças.
Coreia. China. Japão. Estados Unidos. Europa.
A tecnologia pode ser semelhante.
A necessidade não é.
A sociedade não é.
O trabalhador não é.
A consequência não é.
Então como poderia a liderança ser a mesma?
O líder não administra apenas tecnologia
Administra consequências.
Esse, para mim, é um dos pontos que ainda estamos subestimando.
Quando uma empresa decide automatizar uma atividade, ela está tomando uma decisão empresarial.
Mas também está produzindo uma consequência humana.
Quando aumenta a produtividade, existe uma consequência econômica.
Quando elimina uma função, existe uma consequência social.
Quando transfere uma decisão para um algoritmo, existe uma questão de responsabilidade.
E quando milhares de empresas fazem isso simultaneamente, já não estamos falando apenas de gestão empresarial.
Estamos falando de sociedade.
Isso não significa que o líder deva impedir a tecnologia.
Também não significa que sua função seja preservar todos os empregos exatamente como existem hoje.
Seria negar dois séculos de transformação.
Significa reconhecer que eficiência não encerra a decisão.
Existe uma pergunta depois dela:
eficiente para quem e com quais consequências?

Talvez o caminho esteja entre o medo e a euforia
Foi pensando nisso que encontrei recentemente uma palavra de que gostei muito:
apocaloptimismo.
O apocaloptimista não precisa escolher entre dois extremos.
Não precisa acreditar que a inteligência artificial destruirá a humanidade.
Nem precisa acreditar que a tecnologia resolverá nossos problemas porque o mercado, a inovação ou alguma nova máquina encontrarão naturalmente o caminho.
Ele admite as duas possibilidades.
Pode dar muito errado.
E nós podemos trabalhar para que dê certo.
Para mim, isso tem muito a ver com liderança.
O líder desta nova etapa da Revolução Industrial precisa suportar a contradição.
Precisa acelerar e proteger.
Automatizar e observar consequências.
Buscar produtividade e preservar humanidade.
Usar máquinas extraordinariamente capazes sem terceirizar para elas aquilo que continua sendo sua responsabilidade.
Decidir.
A tecnologia pode receber tarefas. A responsabilidade continua humana.
É aí que entra outra palavra que trouxe comigo do AI for Good, em Genebra:
agência.
Podemos delegar tarefas às máquinas.
O que não podemos terceirizar é julgamento, responsabilidade e consequência.
Porque uma IA pode calcular se uma substituição aumenta a produtividade.
Mas alguém terá que responder se aquela substituição faz sentido para aquela empresa, para aquelas pessoas e para aquela sociedade.
E esse alguém ainda é humano.
Quanto mais observo o que está acontecendo em diferentes partes do planeta, menos consigo tratar inteligência artificial como uma discussão exclusivamente tecnológica.
Ela é econômica.
É comportamental.
É social.
É cultural.
É política.
É humana.

O futuro não será igual em todos os lugares
Curiosamente, olhar para toda essa complexidade não me deixa mais pessimista.
Me deixa mais tranquila.
Não a tranquilidade de quem acredita que tudo ficará bem.
A tranquilidade de quem compreende que existem caminhos diferentes sendo experimentados simultaneamente.
Conhecimento dá perspectiva.
Curiosidade impede certezas prematuras.
E consciência amplia nossa capacidade de escolha.
A conexão já transformou bilhões de seres humanos numa espécie de cérebro planetário.
Uma decisão tomada em Seul repercute em São Paulo. Uma tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos muda uma empresa no Brasil. Uma experiência chinesa pode provocar uma discussão europeia. Uma necessidade japonesa pode antecipar o que outros países viverão amanhã.
O cérebro planetário já existe.
O que ainda estamos aprendendo a construir é uma consciência de humanidade à altura dessa conexão.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem lidera agora.
Não prever exatamente como essa revolução terminará.
Mas assumir responsabilidade pelo pedaço dela que passa pelas suas mãos.
Porque a Revolução Industrial nunca acabou.
E, desta vez, nós temos a oportunidade de perceber que estamos dentro dela.
A inteligência artificial vai acabar com os empregos?
Não existe uma única resposta. A tecnologia pode eliminar algumas funções, transformar outras e também criar novas atividades. O impacto depende do contexto econômico, social e cultural de cada sociedade.
Qual é o papel da liderança diante da automação?
O líder não precisa impedir a tecnologia, mas precisa assumir responsabilidade pelas consequências das decisões tecnológicas. Eficiência, produtividade e inovação precisam ser analisadas junto com seus impactos humanos e sociais.
O que significa apocaloptimismo?
Apocaloptimismo é uma forma de olhar para a tecnologia sem cair nem no pessimismo absoluto nem no otimismo ingênuo. É reconhecer que algo pode dar muito errado e, ao mesmo tempo, acreditar que nossas escolhas podem ajudar a construir um resultado melhor.


























































