Quando a eficiência deixa de ser progresso, a pergunta já não é apenas sobre produtividade. Ela passa a ser sobre o tipo de sociedade que estamos ajudando a construir enquanto celebramos empresas menores, estruturas mais enxutas e máquinas cada vez mais capazes.
Ouvi dois empresários falando sobre pessoas.
Um deles lidera uma empresa familiar com cerca de 7 mil funcionários. Ao falar desse número, fez uma conta diferente. Disse que não eram apenas 7 mil pessoas. Eram 7 mil famílias.
E, ao redor delas, fornecedores, transportadores, prestadores de serviços, restaurantes, pequenos comerciantes, escolas e profissionais liberais. Uma empresa daquela dimensão movimentava uma cidade inteira.
Aquilo me tocou profundamente.
Pouco depois, ouvi outro empresário falando com orgulho sobre o movimento contrário.
“Em agosto de 2024 eu tinha 150 pessoas. Hoje tenho 25. E, se depender de mim, chegaremos a cinco.”
E completou dizendo que isso acontecerá com todas as empresas.
Eu fiquei pensando nos dois.
Quando ter menos pessoas virou medida de sucesso?
Não quero fazer um julgamento moral sobre nenhum deles. Também não sou contra inteligência artificial, automação ou robôs.
Seria absurdo defender que empresas mantivessem funções desnecessárias apenas para conservar uma estrutura do passado. Tecnologia existe também para aumentar produtividade, reduzir desperdícios, retirar seres humanos de trabalhos repetitivos e permitir que façamos coisas que antes eram impossíveis.
A questão que ficou na minha cabeça é outra: quando ter menos pessoas passou a ser, por si só, uma medida de sucesso?
Se uma empresa consegue fazer com 25 pessoas o que antes fazia com 150, existe um extraordinário ganho de produtividade. Mas existem também 125 pessoas fora daquela equação.
Talvez tenham encontrado outros trabalhos. Talvez tenham criado empresas. Talvez estejam produzindo mais valor em outro lugar.
Ou talvez não.
Agora multiplique essa decisão por milhares de empresas. Depois, por milhões.
A pergunta deixa de ser empresarial.
Torna-se social.
Eficiência deixa de ser progresso quando esquecemos o todo
Quem compra aquilo que empresas cada vez mais automatizadas produzem? De onde virá a renda? Como serão sustentadas as comunidades?
O que acontecerá com cidades construídas em torno de grandes empregadores?
E há uma pergunta ainda mais humana. Onde as pessoas encontrarão reconhecimento, pertencimento e a sensação de serem necessárias?
Francis Fukuyama chama atenção para algo importante nessa discussão. O trabalho não entrega apenas salário. Ele também participa da construção de reconhecimento, dignidade, identidade e posição social.
Podemos encontrar novas maneiras de distribuir renda numa sociedade altamente automatizada. Mas distribuir dinheiro talvez seja mais simples do que distribuir significado.

Tecnologia para quê e para quem?
É por isso que observo com interesse o conceito japonês de Sociedade 5.0.
A proposta não é interromper o avanço tecnológico. Muito pelo contrário. É construir uma sociedade altamente tecnológica colocando o ser humano no centro e utilizando inovação para conciliar desenvolvimento econômico com solução de problemas sociais.
Há uma mudança importante nessa lógica.
A pergunta deixa de ser apenas: “O que esta tecnologia consegue fazer pela minha empresa?”
E passa a incluir outra: “O que acontece com a sociedade quando todos começarem a fazer isso?”
Porque uma empresa não é uma ilha.
Ela depende de consumidores, trabalhadores, infraestrutura, conhecimento produzido durante gerações, estabilidade institucional, cidades funcionando e comunidades capazes de prosperar.
Ela faz parte de um ecossistema.
Empresas também fazem parte de ecossistemas humanos
Ecossistemas sobrevivem pela diversidade e pela interdependência.
Se tudo no planeta virasse mar, não teríamos um planeta melhor porque teríamos mais mar. Teríamos destruído justamente as diferenças que tornam a vida possível.
Talvez estejamos precisando aplicar o mesmo raciocínio às organizações.
Não existe nada errado em uma empresa buscar eficiência. O problema começa quando otimizamos cada parte sem perguntar o que estamos fazendo com o todo.
Uma decisão pode ser extraordinariamente racional dentro de uma planilha e profundamente irracional quando multiplicada pela sociedade.
O que fazer com o ganho de produtividade?
Acredito que essa será uma das grandes responsabilidades dos líderes nos próximos anos.
Não decidir entre tecnologia e pessoas. Essa escolha é simplista.
A verdadeira decisão será o que fazer com o extraordinário ganho de produtividade que a tecnologia está colocando em nossas mãos.
Transformá-lo exclusivamente em redução de custos?
Ou também em crescimento, novos negócios, jornadas melhores, qualificação, novas funções, participação nos ganhos, desenvolvimento humano e prosperidade da comunidade?
Não tenho uma resposta única. Aliás, desconfio de quem tenha.
Cada empresa, setor, cidade e país parte de uma realidade diferente. O que pode funcionar numa sociedade envelhecida, com escassez de mão de obra, pode produzir consequências completamente diferentes em um país jovem, desigual e com milhões de pessoas buscando oportunidade.
Por isso, não acredito que exista uma única receita de futuro para todas as empresas e todas as sociedades.
Tecnologia escala.
Contexto não.

A responsabilidade de quem lidera
Talvez liderança, daqui para frente, exija justamente a capacidade de enxergar aquilo que não aparece imediatamente no balanço.
O fornecedor. A família. O pequeno comércio. A cidade. A próxima geração. A sociedade que existirá depois da decisão que estamos tomando hoje.
Porque talvez a pergunta mais importante da era da inteligência artificial não seja quantas pessoas uma empresa consegue eliminar sem perder produtividade.
Talvez seja outra.
Quanto progresso tecnológico uma empresa consegue gerar sem eliminar do futuro as pessoas para quem esse progresso deveria servir?
Num mundo obcecado pela inteligência das máquinas, talvez esteja começando uma nova responsabilidade para quem lidera: não administrar apenas empresas eficientes, mas compreender os ecossistemas humanos que suas decisões ajudam a construir ou a destruir.
Leila Navarro
Autora de Admirável Novo Humano
Quando a eficiência de uma empresa deixa de representar progresso?
A eficiência deixa de representar progresso quando a análise considera apenas a redução de custos ou de pessoas e ignora as consequências para trabalhadores, consumidores, comunidades e para o próprio ecossistema econômico do qual a empresa depende.
Como a inteligência artificial pode afetar o futuro do trabalho?
A inteligência artificial pode aumentar produtividade, reduzir tarefas repetitivas e criar novas possibilidades. O desafio é decidir como os ganhos gerados serão usados, seja apenas para reduzir custos ou também para criar novos negócios, qualificação, melhores jornadas e desenvolvimento humano.
O que é Sociedade 5.0?
Sociedade 5.0 é um conceito desenvolvido no Japão que propõe uma sociedade altamente tecnológica e centrada no ser humano, na qual inovação, desenvolvimento econômico e solução de problemas sociais caminham juntos.


























































