Como ser Líder em Tempos Difíceis: Pense como um Astronauta

Como ser Líder em Tempos Difíceis pensando como astronauta

Liderança em cenários imprevisíveis talvez exija uma preparação muito diferente daquela que ainda oferecemos aos líderes. No último sábado, estive diante de 1.700 líderes e saí de lá com uma inquietação: talvez estejamos treinando líderes para um mundo que já não existe.

A pergunta mais feita foi: “Leila, como ser líder em tempos difíceis?” e de pronto eu respondia: “Pense como um astronauta”.

Planejamento estratégico, metas, indicadores, processos, dados, inteligência artificial. Tudo isso é necessário. O problema é que o cenário muda enquanto você decide. Uma tecnologia aparece, um concorrente muda o jogo, uma pessoa-chave sai, o cliente muda de comportamento e aquilo que parecia certo pela manhã precisa ser revisto à tarde.

E o líder continua tendo que liderar.

Por isso, tenho me feito uma pergunta: estamos treinando líderes para cumprir o plano ou para continuarem lúcidos quando o plano deixa de funcionar?

O que um líder tem a ver com um astronauta?

Mais do que eu imaginava.

Sou fascinada por exploração espacial e essa curiosidade me levou a me tornar astronauta análoga. Não, eu não fui ao espaço. Missões análogas acontecem aqui na Terra e reproduzem condições e desafios encontrados na exploração espacial. A NASA utiliza esse tipo de missão para testar tecnologias, procedimentos, protocolos e fatores humanos antes de missões reais.

Foi nesse universo que uma coisa começou a me incomodar: astronauta simula.

Ele não simula porque sabe o que vai acontecer. Simula justamente porque não sabe.

Treina procedimentos, comunicação, convivência, tomada de decisão e resposta a emergências. A NASA trabalha também com as chamadas Expeditionary Skills, competências relacionadas à comunicação, autocuidado e cuidado da equipe, trabalho em grupo e leadership/followership, a capacidade de liderar e também de saber seguir.

Quando comecei a olhar para isso com os olhos de quem trabalha há tantos anos com comportamento humano e liderança, a pergunta foi inevitável: por que treinamos astronautas para o inesperado e ainda treinamos tantos líderes para o previsto?

Um motor apaga. E agora?

Enquanto trabalhava neste artigo, a exploração espacial me entregou um exemplo praticamente em tempo real.

A Starship, da SpaceX, empresa fundada por Elon Musk, realizou seu 14º voo. Quem me acompanha sabe o quanto sou fascinada por exploração espacial e pelas ousadias de Elon Musk. Posso concordar ou discordar de muita coisa, mas gosto de acompanhar quem está tentando fazer aquilo que, pouco tempo atrás, parecia impossível.

A missão era ambiciosa: aproximadamente dez horas de voo, cerca de seis voltas ao redor da Terra e 26 satélites Starlink V3 para colocar em órbita.

Tudo havia sido planejado, calculado e monitorado. Só que, durante a subida, um dos motores desligou antes do previsto.

E é aqui que a história fica interessante para mim.

A Starship conseguiu chegar à órbita pela primeira vez e os 26 satélites foram colocados em órbita. Mas o plano original não sobreviveu intacto. A missão, que deveria durar cerca de dez horas, foi reduzida para aproximadamente três. Depois do splashdown no Pacífico, vieram as imagens impressionantes da nave em chamas.

Uma imagem plasticamente perfeita de um resultado plenamente imperfeito.

E fiquei pensando: afinal, deu certo ou deu errado?

Talvez essa seja uma pergunta pobre demais para a complexidade do que aconteceu.

Para quem lidera, existe uma pergunta muito mais interessante: diante daquilo que não aconteceu como planejado, o que ainda é possível?

líderes astronautas consertando a nave enquanto mantém a órbita na terra.
líderes astronautas consertando a nave enquanto mantém a órbita na terra.

Prontidão não é viver em alerta

Essa é uma das coisas que mais me interessam no treinamento astronauta.

Não estou falando de viver tenso, esperando uma tragédia ou procurando problemas onde eles não existem. Um astronauta não poderia passar meses assim.

Estou falando de prontidão.

Prontidão é estar presente o suficiente para perceber que alguma coisa mudou e preparado o suficiente para responder sem perder a capacidade de pensar.

E talvez esteja aí uma das grandes contradições da liderança atual. Nunca tivemos tantos dados, dashboards, indicadores, previsões e sistemas inteligentes. Mas informação não é percepção. Você pode estar cercado de informação e não perceber os sinais.

O líder de hoje precisa aprender a distinguir sinal de ruído, perceber mudanças, rever prioridades e decidir mesmo quando ainda não dispõe de todas as respostas.

Não é abandonar o planejamento. É parar de acreditar que a realidade tem obrigação de respeitá-lo.

Às vezes não falta informação. Falta mudar de lugar para enxergar

Há ainda outra coisa na exploração espacial que sempre me fascinou: o Overview Effect, a mudança de perspectiva relatada por alguns astronautas quando observam a Terra do espaço.

Vista de fora, a Terra deixa de ser apenas o lugar das nossas fronteiras, disputas, departamentos e pequenos territórios. Ela aparece como um sistema. Os relatos sobre o Overview Effect estão associados à sensação de admiração, mudança de perspectiva e percepção de interconexão.

Isso tem muito a dizer para um líder.

Costumo usar uma imagem simples: quem está no segundo andar vê detalhes que quem está no vigésimo talvez não veja. Mas quem está no vigésimo enxerga relações que quem está no segundo talvez ainda não consiga perceber.

Liderar exige os dois movimentos. Aproximar-se o suficiente para enxergar o detalhe e afastar-se o suficiente para compreender o sistema.

Às vezes, portanto, o problema de um líder não é falta de informação. É excesso de proximidade.

Líder astronauta olhando para a terra através da janela da nave. Como ser um líder em tempos difíceis.
Líder astronauta olhando para a terra através da janela da nave. Como ser um líder em tempos difíceis.

Não quero que você apenas leia sobre isso

Foi exatamente por isso que decidi transformar essa reflexão em experiência.

Criei um agente de inteligência artificial que vai colocar você em uma simulação individual inspirada no treinamento astronauta. Você informa qual é a sua atividade aqui na Terra, pode ser CEO, empresário, gestor, profissional de RH, médico, professor, vendedor ou empreendedor, e a missão será construída a partir da sua realidade.

Acesse o link para entrar na missão do agente
https://leilanavarro.com.br/pc-simulacao-astronauta/

Em algum momento, alguma coisa vai mudar. Um “motor” vai apagar. Você terá que perceber sinais, estabelecer prioridades, tomar decisões e recalcular a rota sem controlar todas as variáveis.

Não é um teste de personalidade e não estou procurando a resposta perfeita. Quero provocar uma coisa muito mais interessante: como você funciona quando aquilo que estava previsto deixa de acontecer?

Podemos estudar adaptabilidade, ler sobre incerteza e assistir a inúmeras palestras sobre liderança. Mas existem capacidades humanas que não se desenvolvem apenas compreendendo conceitos. Precisam ser treinadas.

O astronauta não treina para eliminar o imprevisto. Treina para estar preparado quando ele aparecer.

Talvez esteja na hora de fazermos algo parecido com quem tem a responsabilidade de liderar pessoas e organizações num mundo em transformação permanente.

Quer experimentar? Escreva QUERO nos comentários e eu envio a missão para você no direct.

E então a pergunta deixa de ser teórica:

Tripulante, qual é a sua missão na Terra?

Leila Navarro
Palestrante, mentora e astronauta análoga.
Autora de Admirável Novo Humano: Num mundo cada vez mais tecnológico, ser humano é um ato de resistência.

O que o treinamento de astronautas pode ensinar aos líderes?

O treinamento mostra a importância de desenvolver prontidão, comunicação, tomada de decisão, autocuidado, cuidado da equipe e capacidade de responder quando o cenário deixa de seguir o previsto. A NASA documenta essas competências dentro do treinamento de habilidades expedicionárias. NASA

Como ser um líder quando o planejamento deixa de funcionar?

O primeiro movimento é perceber que o cenário mudou. Depois, é necessário distinguir sinais de ruído, rever prioridades e decidir com as informações disponíveis, sem abandonar o planejamento, mas também sem ficar preso a ele.

O que é o Overview Effect e o que ele ensina sobre liderança?

O Overview Effect descreve uma mudança de perspectiva relatada por astronautas ao observarem a Terra do espaço. A experiência costuma trazer uma percepção mais ampla do planeta como um sistema interconectado. Para a liderança, a metáfora está na capacidade de alternar entre o detalhe e a visão do todo. NASA

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