2026 FOI O AVISO. 2027 SERÁ A PROVA.

Às vezes, o futuro não está escondido. Nós é que continuamos olhando pela janela errada.

O que os líderes precisam aprender quando ninguém tem todas as respostas

Por Leila Navarro

2027 será a prova do que fomos capazes de aprender com os avisos de 2026. E existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos: o que a vida está tentando me ensinar com isso?

Sempre acreditei que a vida é uma grande masterclass gratuita. Todos os dias acontecem coisas que podem nos ensinar alguma coisa. O problema é que nem sempre prestamos atenção. E, olhando para 2026, tenho a impressão de que recebemos algumas lições que não deveríamos ignorar.

A inteligência artificial começou a executar tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas, robôs humanoides avançaram em aplicações industriais e profissões estão sendo redesenhadas. Mas será que estamos compreendendo o significado dessas transformações ou estamos tão ocupados acompanhando as novidades que já não conseguimos interpretar o que está acontecendo?

Essa reflexão ganhou outra dimensão durante minha experiência no AI for Good Summit, em Genebra. Conhecendo iniciativas de diferentes partes do planeta, percebi algo fundamental: não existe um único futuro acontecendo. Existem muitos futuros convivendo no mesmo presente.

O futuro não chega ao mesmo tempo para todos

Em Genebra, conheci iniciativas que utilizam inteligência artificial para melhorar a distribuição de medicamentos em comunidades africanas. Enquanto isso, grandes potências tecnológicas investem em robôs humanoides, sistemas sofisticados de IA e fábricas altamente automatizadas.

Para algumas sociedades, uma grande conquista tecnológica é conseguir que um medicamento chegue a quem precisa. Para outras, é construir uma fábrica capaz de operar com pouquíssima intervenção humana. São realidades distintas, necessidades diferentes e formas igualmente importantes de utilizar a tecnologia.

E no Brasil? Convivemos com essas diferenças dentro do mesmo país. Temos empresas altamente digitalizadas e comunidades que ainda enfrentam dificuldades básicas de infraestrutura, educação e acesso a oportunidades.

Isso me fez pensar que não podemos confundir sofisticação tecnológica com progresso humano. A tecnologia mais avançada nem sempre é aquela que produz a transformação mais significativa. Tudo depende do problema que precisamos resolver e da realidade das pessoas envolvidas.

Para quem lidera, essa compreensão é essencial. Não podemos simplesmente importar soluções sem considerar o contexto em que serão aplicadas.

Estamos todos no mesmo barco, mas não no mesmo lugar

Às vezes, imaginamos que os grandes líderes empresariais sabem exatamente o que fazer, que os CEOs possuem todas as respostas e que as empresas de tecnologia conhecem o destino das transformações que estão provocando.

Mas a realidade é bem mais complexa.

Estamos vivendo um processo no qual empresas, governos, instituições e profissionais aprendem enquanto avançam. Experimentam, acertam, erram, corrigem e recomeçam. Mesmo as organizações mais poderosas não conseguem controlar isoladamente todas as consequências das tecnologias que desenvolvem ou utilizam.

E o gestor que está no meio dessa transformação? Muitas vezes precisa conduzir uma equipe insegura, cumprir metas e implementar mudanças sobre as quais não teve poder de decisão. Precisa transmitir confiança enquanto ele próprio tenta compreender o que está acontecendo.

Estamos todos no mesmo barco, embora ocupemos posições diferentes e tenhamos recursos e responsabilidades distintos. Liderar, nesse cenário, não significa possuir todas as respostas, mas desenvolver a capacidade de tomar decisões responsáveis mesmo quando não temos todas as certezas.

Estamos preparando as pessoas para acompanhar as mudanças?

Uma empresa pode adquirir uma ferramenta de inteligência artificial em poucos dias. Mas quanto tempo leva para preparar as pessoas para trabalhar de outra maneira?

Não estamos falando apenas de treinamento técnico. Estamos falando de confiança, identidade profissional, capacidade de aprender e disposição para abandonar hábitos que funcionaram durante anos.

Um profissional pode compreender perfeitamente uma ferramenta e, ainda assim, sentir medo de perder sua relevância. Um gestor pode reconhecer os benefícios da automação e não saber como conversar com uma equipe preocupada com o próprio futuro.

Por isso, uma pergunta me parece indispensável: estamos investindo cada vez mais em inteligência artificial, mas estamos investindo o suficiente na inteligência humana necessária para conviver com ela?

Talvez uma das grandes lições de 2026 seja justamente esta: a transformação tecnológica não acontece separadamente da transformação humana. E não adianta acelerar processos se as pessoas não conseguem compreender, acompanhar e participar das mudanças.

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A lição da minha mãe: suba para o vigésimo andar

Minha mãe costumava dizer que não deveríamos olhar a vida apenas do primeiro andar. Era preciso subir ao vigésimo, porque lá de cima conseguimos enxergar mais longe.

Essa metáfora nunca fez tanto sentido para mim.

Vivemos num planeta com bilhões de habitantes, mas frequentemente interpretamos o mundo a partir das poucas experiências e informações que compõem nossa rotina. Criamos bolhas profissionais, sociais e digitais e, dentro delas, acabamos acreditando que nossa realidade representa tudo o que está acontecendo.

Para quem lidera, subir ao vigésimo andar significa ampliar referências, ouvir pessoas diferentes, observar outras realidades e questionar certezas. Significa compreender que uma solução bem-sucedida em determinado contexto pode não funcionar em outro.

Não se trata de estar acima das pessoas, mas de ampliar a perspectiva para compreender melhor o mundo em que todos estamos vivendo.

E o que podemos esperar de 2027?

Não tenho bola de cristal e desconfio de quem apresenta previsões sobre o futuro como se fossem certezas. Mas podemos observar os sinais. A inteligência artificial tende a participar cada vez mais dos processos de trabalho, a automação continuará avançando em ritmos diferentes e novas competências serão exigidas.

Minha principal aposta para 2027, porém, não está numa tecnologia específica. Está na necessidade de desenvolvermos uma nova relação com o desconhecido.

Tenho mais de setenta anos e continuo estudando, viajando, conhecendo tecnologias e questionando aquilo que acredito saber. Não porque pretenda dominar todas as novidades, mas porque não quero que minha experiência se transforme numa fronteira para o meu aprendizado.

Foi com essa disposição que fui a Genebra: não como especialista em todas aquelas tecnologias, mas como alguém que queria compreender o que estava acontecendo.

Talvez essa seja uma das atitudes mais importantes para qualquer líder. Ter experiência não significa ter terminado de aprender. O conhecimento acumulado é valioso, mas não pode se transformar numa barreira para novas possibilidades.

2027 será a prova do que aprendemos sobre liderança

A liderança de que precisamos não é aquela que promete controlar o futuro. É aquela que desenvolve consciência para interpretá-lo, coragem para enfrentá-lo e sensibilidade para não deixar as pessoas para trás.

Por isso, antes de perguntar o que acontecerá em 2027, proponho outra reflexão:

O que 2026 tentou nos ensinar que ainda não tivemos coragem de aprender?

Talvez a resposta não esteja em mais uma ferramenta, mais um relatório ou mais uma previsão. Talvez esteja na disposição de mudar o lugar de onde observamos o mundo.

Como dizia minha mãe, suba para o vigésimo andar.

Porque, às vezes, o futuro não está escondido. Nós é que continuamos olhando pela janela errada.

1. O que os líderes precisam aprender com as transformações de 2026?

Precisam compreender que liderar não significa ter todas as respostas. Significa tomar decisões responsáveis diante da incerteza, ampliar perspectivas, continuar aprendendo e considerar as pessoas envolvidas nas mudanças.

2. Como a inteligência artificial deve transformar a liderança em 2027?

A inteligência artificial tende a participar cada vez mais dos processos de trabalho, exigindo novas competências. Os líderes precisarão equilibrar a adoção de tecnologias com a preparação humana, a confiança das equipes e o aprendizado contínuo.

3. Por que o desenvolvimento humano é importante na transformação digital?

Porque a adoção de uma tecnologia pode acontecer rapidamente, mas a preparação das pessoas exige tempo. Além de competências técnicas, é necessário desenvolver confiança, capacidade de adaptação e disposição para mudar hábitos profissionais.

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