Talvez a Copa do Mundo 2026 não revele um problema de distração. Talvez ela revele uma carência silenciosa de conexão humana dentro das organizações.
Estamos tentando engajar um ser humano diferente daquele de dez anos atrás. Mais cansado, mais acelerado, mais ansioso, mais fragmentado e mais sobrecarregado. Um ser humano que vive conectado tecnologicamente, mas muitas vezes disperso emocionalmente.
As pessoas passam o dia em reuniões, mensagens, plataformas, calls e dashboards. Estão juntas o tempo todo, mas nem sempre vivem experiências juntas. Esse é um dos conflitos invisíveis do trabalho atual.
Talvez as pessoas não estejam simplesmente desinteressadas. Talvez estejam exaustas, tentando sobreviver a um mundo que acelerou rápido demais. E talvez muitos líderes ainda estejam tentando resolver dores novas com fórmulas antigas.
Mais benefícios. Mais reuniões. Mais campanhas. Mais comunicação. Mais ações de engajamento.
Mas pouca experiência humana real.
A Copa chama atenção justamente porque mobiliza algo profundamente humano. Ela muda o tom de voz, altera a energia do ambiente, cria expectativa e instala um ritual. As pessoas olham mais umas para as outras, conversam mais, riem mais, discordam mais e sentem mais.
Isso importa. Porque seres humanos não criam vínculo apenas pela razão. Criamos vínculo pela experiência, pelo sentir e pela memória emocional daquilo que vivemos juntos.

O que o RH pode aprender com a Copa do Mundo 2026
Um dos grandes esquecimentos do mundo corporativo talvez tenha sido acreditar que cultura se constrói apenas por processos e comunicação. Claro que processos importam. Indicadores importam. Gestão importa.
Mas cultura também nasce daquilo que as pessoas experimentam no cotidiano. Nasce do ambiente, dos encontros, da energia emocional compartilhada e da sensação, muitas vezes invisível, de pertencimento.
A Copa do Mundo 2026 pode lembrar ao RH que engajamento não nasce apenas de campanhas internas. Engajamento nasce quando as pessoas sentem que fazem parte de algo. Quando existe um símbolo, uma narrativa, um ritual, uma emoção compartilhada.
Isso não significa transformar a empresa em festa. Significa compreender que o humano precisa de sentido, presença e conexão para permanecer inteiro no trabalho.
O RH do futuro precisa assumir um papel muito mais estratégico. Menos gestor de políticas e mais arquiteto de experiências humanas. Menos focado apenas em clima organizacional e mais atento à energia emocional coletiva.
Também precisa olhar além da retenção de talentos. O desafio não é apenas manter pessoas na empresa. É compreender o que faz um ser humano permanecer presente, conectado e emocionalmente disponível em um mundo de excesso, velocidade e distração.
Tenho conversado com muitos líderes e RHs, dentro e fora do Brasil, e percebo uma angústia crescente. Muita gente sente que perdeu o manual de funcionamento das pessoas.
Talvez tenha perdido mesmo.
Porque o humano mudou. Mudou a relação com o trabalho, com autoridade, com tempo, com sofrimento, com presença e com propósito. E, quando o humano muda, o RH também precisa mudar.
Engajamento não é fazer as pessoas performarem mais
Talvez o desafio das empresas não seja fazer as pessoas performarem mais. Talvez seja criar ambientes onde elas consigam, novamente, sentir que pertencem.
Pode parecer curioso dizer isso em um artigo sobre futebol. Mas talvez o futebol esteja apenas nos lembrando de algo essencial: as pessoas ainda querem viver algo juntas.
Elas ainda querem conexão. Ainda querem rituais. Ainda querem emoção compartilhada. Ainda querem sentir que fazem parte de uma história maior do que a própria função.
Talvez o problema nunca tenha sido falta de engajamento. Talvez tenha sido excesso de ambientes onde quase nada toca as pessoas de verdade.
A Copa do Mundo 2026, nesse sentido, pode ser um espelho. Ela mostra que a energia coletiva não desapareceu. O desejo de pertencer não acabou. A vontade de vestir uma camisa ainda existe.
Mas ninguém veste a camisa de um lugar onde não sente presença.

O novo papel do RH diante de um ser humano que mudou
A Copa do Mundo 2026 pode ser tratada pelas empresas como interrupção, distração ou risco para a produtividade. Mas também pode ser vista como um laboratório vivo sobre comportamento humano.
O RH que observar apenas os horários dos jogos talvez perca a parte mais importante. O RH que observar as conversas, os vínculos, os símbolos e a energia emocional talvez encontre pistas valiosas sobre o futuro do trabalho.
Porque o futuro do RH não será definido apenas por tecnologia, dados ou automação. Será definido pela capacidade de compreender o que continua profundamente humano dentro de um mundo cada vez mais acelerado.
A pergunta não é apenas como organizar a rotina da empresa durante a Copa. A pergunta é mais profunda: o que faz as pessoas se conectarem de verdade?
Essa talvez seja uma das competências mais sofisticadas do RH do futuro. Criar espaços onde as pessoas continuem humanas enquanto o mundo acelera.
E, se essa reflexão faz sentido para você, talvez valha continuarmos essa conversa. Tenho estudado profundamente as mudanças do comportamento humano, liderança, presença e os novos desafios das organizações em um mundo cada vez mais tecnológico. Me escreva. Vou adorar trocar ideias.
Perguntas Frequentes
A Copa do Mundo 2026 pode ajudar o RH a observar como vínculos, rituais, símbolos e emoções compartilhadas impactam o engajamento dentro das empresas.
A Copa pode criar momentos de encontro, conversa e pertencimento. Quando bem conduzida, ela deixa de ser apenas uma pausa na rotina e se torna uma experiência humana coletiva.
O principal aprendizado é que engajamento não nasce apenas de campanhas, processos ou comunicados. Ele nasce de experiências que fazem as pessoas se sentirem parte de algo real.
Sobre a autora
Leila Navarro é especialista em Saúde Integral, Liderança Sensorial e Cultura Regenerativa. Criadora dos conceitos de Ergonomia Sensorial, Inteligência Sensorial e Liderança Presente. Atua em empresas e eventos no Brasil e no exterior, unindo ciência, neurociência e experiência prática para provocar a reconexão entre corpo, emoção, propósito e tecnologia.
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