Desde que comecei a escrever Admirável Novo Humano, uma pergunta não me larga: o que continuará sendo essencialmente humano quando as máquinas puderem realizar uma parte cada vez maior daquilo que nós fazemos?
Escrever esse livro me levou a pesquisar inteligência artificial, comportamento, longevidade, novas gerações, mudanças no trabalho. Mas, quanto mais estudo tecnologia, mais acabo olhando para o ser humano. E ultimamente comecei a desconfiar de que estamos discutindo muito se a IA vai tirar nossos empregos e pouco sobre uma questão anterior: por que demos ao trabalho tanto poder para definir quem somos?
Essa relação entre identidade profissional e valor pessoal talvez seja uma das perguntas mais importantes que precisamos fazer agora.
Quando trabalhar se torna uma justificativa para tudo
Há algum tempo, um diretor executivo me contou que às vezes ficava no escritório além do necessário porque preferia chegar em casa quando tudo já estivesse mais calmo. As crianças quase dormindo, a rotina resolvida, menos demandas esperando por ele.
Aquilo ficou comigo.
Se ele dissesse “não quero ir para casa agora porque não estou com vontade de lidar com tudo aquilo”, provavelmente seria julgado. Mas existe uma justificativa que nossa sociedade respeita: “Eu estava trabalhando.”
E quase ninguém pergunta mais nada.
Ontem, uma amiga me contou outra história. O pai está há meses muito mal, em uma situação de fim de vida, medicado com morfina. Ela vai vê-lo praticamente todos os dias, mas domingo decidiu não ir. Disse à mãe que precisava trabalhar.
A mãe respondeu: “Trabalho em primeiro lugar.”
Não estou julgando o executivo nem a minha amiga. Muito menos a mãe dela. Estou interessada no que existe por trás dessas histórias, porque eu também conheço esse código.
O que aprendi sobre trabalho, segurança e independência
Minha mãe me ensinou, de mulher para mulher, que homem nenhum me daria a segurança que o meu trabalho poderia me dar. Meu pai teve uma infância muito pobre, ficou órfão e construiu a vida com trabalho e disciplina. Ele repetia uma frase que ouvi inúmeras vezes: “Uma família é como uma firma, precisa de disciplina e organização.”
Para eles, trabalho não era uma teoria sobre propósito. Era sobrevivência, segurança, dignidade e, no caso da minha mãe, independência feminina.
Eu herdei isso.
E trabalhei muito.
Só que aconteceu uma coisa que hoje, aos 73 anos, consigo enxergar melhor: o trabalho não ficou apenas no lugar da sobrevivência. Ele foi ocupando outros lugares. Trouxe independência, reconhecimento, pertencimento, prazer, curiosidade, criação. Virou uma parte importante da minha identidade.
E aqui começa o meu incômodo.
Como o trabalho passou a definir nossa identidade profissional?
Durante grande parte da história humana, trabalhar esteve diretamente relacionado à sobrevivência. Caçar, plantar, colher, preparar alimentos, construir, cuidar também são trabalho. A própria Organização Internacional do Trabalho inclui na definição estatística contemporânea atividades produtivas realizadas inclusive para consumo próprio. Trabalho, portanto, é muito anterior ao emprego.
Nós é que, ao longo da história, fomos organizando, industrializando e institucionalizando esse trabalho. Vieram o emprego, a profissão, a carreira, o cargo, o crachá. E pouco a pouco aconteceu uma coisa curiosa: aquilo que fazíamos começou a responder por aquilo que éramos.
Até hoje alguém pergunta “quem é você?” e nós respondemos “sou médica”, “sou executivo”, “sou professora”, “sou engenheiro”, “sou palestrante”.
Pense um pouco na estranheza disso.
Perguntaram quem você é e você respondeu o que você faz.
O trabalho é importante, mas não ocupa o mesmo lugar para todos
Existe até um campo de pesquisa dedicado à chamada centralidade do trabalho: o lugar e a importância que o trabalho ocupa na vida e na identidade das pessoas. E a literatura é mais cuidadosa do que aquela simplificação de internet que coloca Baby Boomers de um lado, geração X, Millennials e Z do outro. Geração conta, mas contam também idade, momento histórico, cultura, gênero, condição econômica e fase da vida.
Por isso não quero fazer aqui um discurso contra o trabalho. Seria inclusive hipócrita da minha parte.
Eu gosto de trabalhar.
Hoje trabalho, curiosidade, prazer, criação e vida estão tão misturados em mim que às vezes não sei exatamente onde termina um e começa o outro. Não quero “me aposentar da vida” para provar que aprendi a viver. Trabalhar também me faz sentir viva.
Mas aí vem uma pergunta que eu preciso ter coragem de fazer a mim mesma:
Eu amo trabalhar ou aprendi tão bem a trabalhar que já não sei existir sem produzir?
Não sei se a resposta é uma coisa ou outra. Pode ser as duas.

E quando a inteligência artificial começa a fazer o nosso trabalho?
E é justamente nesse ponto que a inteligência artificial entra nesta conversa.
Máquinas já escrevem, calculam, programam, organizam, analisam dados, encontram padrões, produzem imagens e assumem tarefas que até pouco tempo atrás ajudavam a definir nosso valor profissional. Não significa que “os empregos vão acabar”. Essa é uma simplificação que os estudos sobre o impacto da IA no trabalho não sustentam dessa maneira. Significa que tarefas, profissões e a relação entre humanos e máquinas estão sendo reorganizadas.
Então, em vez de perguntar apenas “a IA vai tirar o meu emprego?”, eu gostaria de colocar outra pergunta na mesa:
Se construí boa parte da minha identidade sobre aquilo que faço, o que acontece comigo quando fazer deixa de ser uma exclusividade humana?
Aqui já escuto o advogado do diabo: “Leila, muito bonito. Para quem pode escolher. Para milhões de pessoas, trabalho continua sendo comida na mesa.”
Claro que sim.
Não podemos romantizar o trabalho. Existe quem trabalhe porque ama e existe quem trabalhe porque precisa sobreviver. Na verdade, a mesma pessoa pode viver essas duas experiências ao longo da vida, ou até no mesmo emprego.
Mas exatamente por isso essa discussão precisa acontecer agora. Porque a tecnologia não vai transformar somente o trabalho de quem encontra propósito nele. Vai atingir tarefas, relações de poder, formação profissional, critérios de contratação, produtividade e a própria maneira como as empresas atribuem valor às pessoas.
A tecnologia não vai nos tornar mais humanos
E tenho ainda outro advogado do diabo, talvez mais incômodo: quem disse que, se as máquinas fizerem mais, nós automaticamente seremos mais humanos?
Podemos usar IA para ganhar duas horas e preencher imediatamente essas duas horas com mais trabalho. Podemos automatizar para produzir mais, acelerar mais, responder mais, controlar mais. Podemos construir máquinas extraordinariamente inteligentes e continuar formando seres humanos cada vez mais ausentes.
A tecnologia não vai nos humanizar.
Isso continua sendo responsabilidade nossa.
O que as lideranças vão valorizar quando as máquinas também produzirem?
E é aqui que eu acho que a conversa interessa especialmente a quem lidera.
Se durante décadas medimos pessoas principalmente pela quantidade e pela qualidade do que conseguiam fazer, o que vamos medir quando uma parcela desse fazer for realizada em parceria com máquinas?
Não tenho uma fórmula pronta. Mas sei que teremos de prestar muito mais atenção ao que o humano coloca dentro do fazer: julgamento, responsabilidade, pensamento crítico, presença, capacidade de estabelecer relações, fazer perguntas, sustentar decisões e compreender consequências.
Não é o fim do fazer. É o fim do fazer como única medida do nosso valor.
Quem somos quando o trabalho deixa de ser nossa principal identidade?
Talvez estejamos chegando a uma nova etapa dessa história.
Durante séculos, trabalho significou principalmente sobrevivência. Depois ganhou a forma de emprego. Para muita gente virou carreira e, para muitos de nós, identidade.
Agora uma máquina começa a dividir conosco justamente o território do fazer.
E talvez a inteligência artificial esteja nos prestando, sem querer, um serviço bastante desconfortável: ela está nos obrigando a perguntar por que trabalhamos.
Por dinheiro? Segurança? Reconhecimento? Pertencimento? Prazer? Criação? Contribuição? Medo de parar? Medo de descobrir quem somos quando não estamos produzindo?
Eu não tenho uma resposta única. E, sinceramente, desconfio de quem tiver.
Mas hoje entendo melhor uma frase que venho repetindo:
“O fazer é para os robôs; o ser é para os humanos.”
Não significa que vamos parar de fazer. Eu não pretendo.
Significa que não podemos continuar dependendo exclusivamente daquilo que produzimos para saber quem somos e quanto valemos.
Se durante tanto tempo trabalhamos para garantir a vida, talvez o desafio do Admirável Novo Humano seja outro: descobrir como fazer do trabalho parte da vida sem transformar a vida inteira em trabalho.
E aí eu deixo a pergunta que começou a me incomodar e que agora passo para você:
Se amanhã ninguém perguntasse o que você faz, o que você responderia quando perguntassem quem você é?
Leila Navarro
Por que o trabalho se tornou tão importante para nossa identidade?
Porque, além de garantir sobrevivência e segurança, o trabalho passou a oferecer reconhecimento, pertencimento, independência e realização pessoal. Com o tempo, muitas pessoas começaram a definir quem são a partir da profissão e do que produzem.
Como a inteligência artificial pode afetar nossa identidade profissional?
A inteligência artificial está assumindo tarefas antes associadas exclusivamente às capacidades humanas. Isso nos leva a questionar uma identidade construída em torno do fazer e a reconhecer o valor humano para além da produtividade.
É possível gostar de trabalhar sem transformar o trabalho na própria vida?
Sim. O trabalho pode proporcionar prazer, criação, segurança e realização sem se tornar a única medida do nosso valor. O desafio é fazer dele parte da vida, sem transformar a vida inteira em trabalho.


























































